terça-feira, 13 de maio de 2014

ABOLIÇÃO INCONCLUSA

Por Larissa Santiago


Apesar de todo empenho e séculos de luta, tanto de escravos revoltosos como de abolicionistas e agora ativistas antiracismo, não podemos falar em abolição de maneira conclusa.  E ainda temos de disputar sobre qual foi o significado de 13 de maio, quem foram seus protagonistas e o impacto de implicações para toda sociedade brasileira atual.

Ainda interessa à branquitude defender que uma assinatura deu fim à todas as desigualdades sociais alimentadas pelo racismo, como se fosse possível com um passe de mágica dar conta de séculos de cativeiro, sequestros, mentira, trabalhos forçados, exploração sexual, estupro,  assassinato, violências de toda natureza enfim.

Tentando calar as revoltas populares, sobretudo após o exemplo de Saint Domingue, uma falsa abolição se apresentou como o melhor caminho para invisibilizar qualquer discussão.  Sabe-se que por décadas os movimentos de fuga, insurgência e libertação independentes já eram quase que incontroláveis.

 “(…) o 13 de maio não significou o fim imediato das práticas escravistas das relações sociais de trabalho, com hábitos a ela aliados” (DOMINGUES, 2004, pg 245).

Com a abolição, nenhuma garantia foi dada sobre quaisquer direitos fazendo com que milhares de mulheres, crianças e idosos fossem jogados a própria sorte. Somente mais de um século depois a lei versaria efetivamente sobre as atividades exercidas pelas trabalhadoras domésticas. Mesmo assim, dando pouca ou nenhuma atenção à regulamentação dos direitos conquistados por décadas, séculos de batalha.

A violência física e simbólica, empregada em homens e mulheres também permaneceu a mesma, o chicote que estalava nas sezalas ganhou as ruas, a sexualização das mulheres negras através do estupro forçado. Até hoje os ecos da negação dos direitos básicos (saúde, educação, moradia, o exercício do ir e vir) são ouvidos pelas periferias e ruas do nosso país que forjou uma “liberdade” que nada mais é que uma miragem que está muito longe de ser conquistada em sua plenitude.

Somente em 2004 a sociedade brasileira assumiu institucionalmente que é um país racista, com a primeira lei de cotas nas universidades. Somente em 2013 foi criada uma emenda constitucional versando sobre o trabalho doméstico, uma promessa ainda a ser cumprida sobre seu direito a ter direitos. Agora em 2014 ainda temos mulheres sendo assassinadas por serem confundidas com praticantes de “magia negra”, jovens negros mortos por serem confundidos com bandidos.

Depois de 126 anos de papel assinado e guardado, ainda são expostas as feridas do empreendimento colonial racista e opressor. E ainda lutamos por liberdade, dignidade e visibilidade. Ainda temos de nos debruçar sobre a tarefa de expor o racismo, dizer como ela afeta nossos corpos e cotidianos.


Adaptado do site - http://blogueirasnegras.org/2014/05/13/a-abolicao-e-a-mulher-negra-o-significado-do-13-de-maio/

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