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sábado, 30 de janeiro de 2016

Homens e Mulheres Sapiens

Quando era mais jovem, devo estar ficando velho, sempre que via uma mulher defendendo o feminismo já via essa defesa como algo radical, pensava comigo: “isso é um exagero”. Na sociedade atual os direitos são iguais, o que pesa para alguem estar ou não em determinada posição é definido por sua competência, não por seu gênero e mais do que isso, pensava que a sociedade conseguia enxergar as coisas assim, mas depois de uma reflexão profunda vi o quão enganado estava.

Mesmo no seculo XXI as desigualdades de oportunidades, salários ou o próprio olhar da sociedade, para comportamentos de homens e mulheres, difere muito, um exemplo de algo que escuto muito quando as pessoas se referem a mulheres que estão em cargos de chefia ou destaque é:

“Fulana só chegou ali por que deu para as pessoas certas” ou “Fulana na verdade é uma puta que dá para o seu chefe”. Se essa mulher sonhar em galgar espaços maiores esses comentários só vão piorando... “Fulana só está ali por que é mulher do beltrano”,  “A fulana? puta, puta, puta, dá pra todo mundo, alias só não dá pro marido”. Competência e capacidade nunca são vistas.

Você pode até estar pensando, assim como eu pensava quando era mais jovem, que isso é normal, que todo mundo que decide seguir na vida publica sofre com isso, mas não é. Tenho uma coisa pra te dizer: se você ainda não percebeu, somos doutrinados para achar que ser machista é o normal e o que foje disso é radical, estranho, coisa desse povo de esquerda, dessas mulheres que não raspam o “sovaco” ou depilam as pernas.

Você pode, assim como eu, (já descobri que era um perfeito modelo de homo que acha que sapiens), achar que isso é coisa de mulheres que não se dão ao repeito, por que se a mulher for seria esta terá o devido respeito, e por vezes, algumas mulheres acreditam nisso e tentam adquirir posturas mais duras e sisudas para inibir esses comentários, por que se uma mulher sorrir demais sempre desconfiamos, mas mesmo essa postura mais sisuda não deixa de gerar o comentário rotineiro; “fulana... é sapatão, mal amada, ta precisando é de alguem que coma ela direito”.

Sinceramente eu não sei o que me levou a escrever isso, nem quero aqui ser melhor que qualquer um dessas rodas, cometo meus deslizes, por vezes julgo de forma equivocada, mas eu não posso deixar de parabenizar as mulheres que entram na vida publica, pois eu sei que deve ser muito difícil enfrentar esses preconceitos e comentários, e mais difícil ainda é fazer com que nos homens compreendamos isso e respeitemos, acho que essas mulheres que entram na vida publica devem ser aquelas mulheres sapiens que a Dilma saudou e que até agora nos homos não sapiemos o porque.
  

terça-feira, 13 de maio de 2014

ABOLIÇÃO INCONCLUSA

Por Larissa Santiago


Apesar de todo empenho e séculos de luta, tanto de escravos revoltosos como de abolicionistas e agora ativistas antiracismo, não podemos falar em abolição de maneira conclusa.  E ainda temos de disputar sobre qual foi o significado de 13 de maio, quem foram seus protagonistas e o impacto de implicações para toda sociedade brasileira atual.

Ainda interessa à branquitude defender que uma assinatura deu fim à todas as desigualdades sociais alimentadas pelo racismo, como se fosse possível com um passe de mágica dar conta de séculos de cativeiro, sequestros, mentira, trabalhos forçados, exploração sexual, estupro,  assassinato, violências de toda natureza enfim.

Tentando calar as revoltas populares, sobretudo após o exemplo de Saint Domingue, uma falsa abolição se apresentou como o melhor caminho para invisibilizar qualquer discussão.  Sabe-se que por décadas os movimentos de fuga, insurgência e libertação independentes já eram quase que incontroláveis.

 “(…) o 13 de maio não significou o fim imediato das práticas escravistas das relações sociais de trabalho, com hábitos a ela aliados” (DOMINGUES, 2004, pg 245).

Com a abolição, nenhuma garantia foi dada sobre quaisquer direitos fazendo com que milhares de mulheres, crianças e idosos fossem jogados a própria sorte. Somente mais de um século depois a lei versaria efetivamente sobre as atividades exercidas pelas trabalhadoras domésticas. Mesmo assim, dando pouca ou nenhuma atenção à regulamentação dos direitos conquistados por décadas, séculos de batalha.

A violência física e simbólica, empregada em homens e mulheres também permaneceu a mesma, o chicote que estalava nas sezalas ganhou as ruas, a sexualização das mulheres negras através do estupro forçado. Até hoje os ecos da negação dos direitos básicos (saúde, educação, moradia, o exercício do ir e vir) são ouvidos pelas periferias e ruas do nosso país que forjou uma “liberdade” que nada mais é que uma miragem que está muito longe de ser conquistada em sua plenitude.

Somente em 2004 a sociedade brasileira assumiu institucionalmente que é um país racista, com a primeira lei de cotas nas universidades. Somente em 2013 foi criada uma emenda constitucional versando sobre o trabalho doméstico, uma promessa ainda a ser cumprida sobre seu direito a ter direitos. Agora em 2014 ainda temos mulheres sendo assassinadas por serem confundidas com praticantes de “magia negra”, jovens negros mortos por serem confundidos com bandidos.

Depois de 126 anos de papel assinado e guardado, ainda são expostas as feridas do empreendimento colonial racista e opressor. E ainda lutamos por liberdade, dignidade e visibilidade. Ainda temos de nos debruçar sobre a tarefa de expor o racismo, dizer como ela afeta nossos corpos e cotidianos.


Adaptado do site - http://blogueirasnegras.org/2014/05/13/a-abolicao-e-a-mulher-negra-o-significado-do-13-de-maio/